Memories
Porque guardamos as primeiras roupinhas?
Memories
Porque guardamos as primeiras roupinhas?
Há perguntas que só aparecem
depois de sermos pais.
Não estão nos livros sobre maternidade. Nem nas listas do enxoval. Um dia olhamos para uma peça demasiado pequena. E percebemos que ainda não estamos prontos para a deixar partir.
Há memórias que continuam a caber
dentro de uma pequena gaveta.
Uma delas é esta:
Porque é que há peças tão pequenas
que acabamos sempre por guardar?
Um body. Um casaquinho de malha. Umas botinhas que parecem deixar de servir num instante.
Sabemos que já não lhes servem. Sabemos que cresceram. Mesmo assim, há peças que não conseguimos oferecer, arrumar definitivamente ou deixar partir. Desde que fui mãe, dou por mim a pensar muito no tempo. Antes media-o em dias, semanas ou meses. Agora reconheço-o de outra forma: num primeiro sorriso, num passeio, numa peça que ainda servia na semana passada e que hoje já ficou pequena. A infância passa depressa, mas deixa-nos memórias muito concretas. Às vezes, basta abrir uma gaveta e encontrar uma daquelas primeiras roupinhas para voltarmos, por um instante, ao início de tudo. Lembramo-nos do primeiro dia em casa. Do primeiro colo. Do cheiro a bebé. Daquela sensação de tudo ser novo e tão frágil. A roupa deixou de servir, mas o momento continua lá. Talvez seja essa a razão pela qual guardamos algumas peças. Não pelo seu valor material, mas por aquilo que passaram a representar. Uma fase breve da nossa vida. Um tempo de descobertas, de noites longas e de um amor que nem sabíamos que podia existir.
O que fica quando a infância passa?
Ficam as memórias que vivemos. O amor que partilhámos. E, por vezes, ficam também as pequenas peças que escolhemos guardar. Foi também a pensar nisso que nasceu a vontade de criar peças que possam durar para além do tempo em que são vestidas. Porque, por vezes, uma roupa deixa de ser apenas roupa. Passa a fazer parte da história de uma família. E algumas memórias podem, realmente, ser dobradas, guardadas e reencontradas muitos anos depois.